terça-feira, 10 de outubro de 2017

Leituras: "Carrie", de Stephen King

Com o recente lançamento de três filmes baseados nas suas obras (It, A Torre Negra e também Gerald's Game na Netflix), não podemos negar que Stephen King é um escritor que está na moda e que conquista um maior número de fãs a cada dia que passa. Já falei sobre ele várias vezes aqui no blogue, especialmente quando escrevi sobre o filme e o livro Misery, que foi o penúltimo que li deste autor. 
Recentemente, a Editora Bertrand lançou uma nova edição de outra das suas obras: Carrie. Contactei a Editora e falei com pessoas muito simpáticas - às quais agradeço desde já - que me enviaram um exemplar para ler e partilhar aqui neste espaço. Por isso, hoje venho falar-vos deste pequeno livro.


Antes de mais, tenho de referir o facto de Carrie ter sido o primeiro livro de Stephen King, lançado em 1974. Podemos ver que a escrita deste homem é diferente até mesmo no início da sua carreira. Às vezes pode parecer um pouco confusa, mas acreditem em mim quando vos digo que no final da leitura vão perceber tudo.
Esta obra apresenta-nos Carrie White, uma adolescente que vive com a sua mãe, Margaret, em Chamberlain no Maine. Margaret é uma fanática religiosa louca que a maltrata para que esta siga as suas crenças. 
Quando Carrie vai para a escola, é uma rapariga muito tímida e torna-se num alvo de chacota por parte dos colegas. No início da história, aparece-lhe pela primeira vez a menstruação e ela não sabe o que se está a passar. Claro que esta situação peculiar faz com que a rapariga seja bastante rebaixada e gozada pelas colegas, especialmente por Chris Hargensen e Sue Snell, duas raparigas bastante populares. No entanto, o que ninguém sabe é que Carrie tem poderes telecinéticos e consegue mover objetos apenas com a mente, por isso quando esta fica nervosa começam a acontecer coisas muito estranhas.  
A certo momento, Sue arrepende-se de ter gozado com Carrie e pede ao namorado que a convide para ir ao baile da escola, para que a jovem assim se sinta especial. Quando é convidada, Carrie pensa que é tudo uma brincadeira, mas acaba por aceitar, o que leva a um desfecho bastante trágico.
Neste livro, à medida que a narrativa se vai desenrolando, vai sendo intercalada com pequenos excertos de notícias e testemunhos referentes ao caso da protagonista e ao fenómeno da telecinesia. Isto ajuda a trazer a história para o mundo real, ao mesmo tempo que vai entregando pistas acerca do final. A leitura é bastante dinâmica, com diálogos rápidos e simples e acontecimentos que nos mantêm agarrados ao livro. 
Como referi em cima, a história começa de uma maneira estranha, que nos leva logo a perceber que Carrie não é uma pessoa normal. Simpatizamos com ela e desejamos saber mais sobre os seus poderes e sobre a sua infância. Infelizmente, a personagem não é muito desenvolvida e apenas ficamos a saber o básico sobre ela. 
Enquanto Carrie ganha a nossa empatia, as outras personagens (especialmente Chris Hargensen) são apenas merecedoras do nosso ódio. As crueldades descritas neste livro fazem-nos pensar se existem realmente pessoas assim tão más, que apenas ficam felizes com a miséria alheia. Também Margaret, a mãe, é capaz de nos deixar chocados com as suas atitudes. Aliás, a meu ver, o "terror psicológico" deste livro está precisamente presente nesta personagem. Os jogos mentais que ela faz com Carrie, convencendo a filha de que certas atitudes é que são boas e outras são más, tornam-se ridículos, mas assustadores. 
Carrie é uma obra que explora muitos temas que ainda são atuais. Fala sobre bullying, sobre fanatismos religiosos e também reflete sobre as responsabilidades da Escola e da Família. Neste caso, muitas coisas que acontecem podiam ter sido evitadas se tanto a Escola como a Família tivessem ajudado a jovem. Por exemplo, percebemos logo que Carrie não sabe o que é a menstruação porque nunca aprendeu nada sobre isso antes e quando começa a sangrar, pela primeira vez, pensa que está a ter uma hemorragia - se soubesse o que estava a acontecer, teria uma reação diferente que mudaria os acontecimentos seguintes. 
É uma leitura bastante agradável e diferente, mas que nos deixa com vontade de ler mais. Quando terminamos o livro sentimos um pequeno vazio, mas ficamos também com a certeza de que vamos recordar a jovem Carrie para sempre.

Mais uma vez, quero agradecer à Editora Bertrand pela simpatia e por me terem enviado um exemplar deste livro. 😊

domingo, 8 de outubro de 2017

"Linha Mortal" em análise

Linha Mortal é um remake do filme com o mesmo nome de 1990. Foi realizado por Niels Arden Oplev e conta com Elle Page no papel principal. 


Linha Mortal apresenta-nos cinco estudantes de medicina que tentam descobrir o que acontece depois da morte. Para isso têm de parar os seus corações por alguns minutos para depois "ressuscitarem". Cada um passa por esta experiência e todos eles voltam à vida, mas brincar com a morte faz com que comecem a ser perseguidos por fantasmas do passado.
Courtney, interpretada por Ellen Page, é quem tem a ideia de passar esta linha que separa a vida da morte, depois de um acidente. É ela que convence os colegas de que fazer esta experiência só pode ser positivo, porque ninguém antes tinha feito algo assim e ninguém sabe o que acontece quando o nosso coração pára. No entanto, ela nunca diz aos outros a principal razão que a leva a querer experimentar isto - o espectador, porém, sabe desde o início do filme, tendo aqui um conhecimento especial desta personagem.
Já disse várias vezes aqui no blogue que fico sempre um pouco assustada quando sei que vão fazer um remake (ou até mesmo uma sequela) de determinado filme. Desta vez não fiquei, porque ainda não vi o filme de 1990. Portanto, ao ver este filme tive acesso a esta história pela primeira vez. Acredito que para quem viu o filme antigo este não traga nada de novo.
Linha Mortal, como já disse, dá uma atenção especial à personagem Courtney. Só ficamos a conhecer os outros quando estes participam na experiência. No entanto, a maneira como ficamos a conhecê-los é demasiado rápida, o que não nos permite simpatizar logo com eles. O filme, na verdade, passa-se bastante rápido e parece não perder muito tempo com introduções.
O grande problema que tenho de destacar está no facto de estarmos perante um filme que quer ser um pouco de tudo: Comédia, Terror, Drama, Thriller e Romance. Temos partes que foram feitas para rir, mas depois temos cenas cheias de jumpscares (e admito que, ao contrário dos últimos filmes de Terror que vi, este ainda me pregou um ou dois sustos). O pior é que o contraste entre géneros aqui presente não ficou bem, porque parece que estamos a ver filmes diferentes que se juntaram num só.
Relativamente ao elenco, Elle Page rouba todas as atenções e a partir de um certo momento, que quando forem ver vão perceber qual é, o filme perde todo o interesse porque passa a centrar-se nas personagens secundárias que mal nos foram apresentadas. No papel dessas personagens temos Diego Luna, Nina Dobrev, James Norton e Kiersey Clemons (desta última não consegui gostar mesmo). Também Kiefer Sutherland, que fez parte do elenco do filme de 1990, tem aqui um papel que apesar de não aparecer muito acaba por ser bastante simbólico.
Esta crítica já vem um pouco tarde, visto que o filme estreou no dia 28 de Setembro, mas ainda podem ir ver o filme aos Cinemas. Agora, está na altura de eu ir ver o filme antigo, que espero que seja muito melhor.
 5/10 ⭐

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

"Blade Runner 2049" em análise

Em 1982, Ridley Scott presenteou o mundo com o filme Blade Runner: Perigo Iminente, que na altura não foi muito bem recebido. Mas ao longo dos anos serviu de inspiração a inúmeros filmes de ficção científica e tornou-se numa obra-prima do Cinema. Agora Denis Villeneuve apresenta a sua sequela, Blade Runner 2049.


No primeiro filme, passado em 2019, foram-nos apresentados dois conceitos: o de replicante e o de blade runner. Um replicante é uma espécie de robot inventado pela Tyrell Corporation. Bastante idêntico ao ser humano, é mais rápido, flexível e inteligente.
Depois de uma revolta, foram declarados ilegais e, então, foi criada uma unidade da Polícia responsável para os afastar (ou, mais precisamente, executar) - os blade runner. Neste filme, tivemos Harrison Ford no papel de Rick Deckard, um blade runner.
Agora, em Blade Runner 2049, o enredo passa-se trinta anos depois da história do primeiro filme. 'K' é um novo blade runner que fica encarregue de resolver um mistério do passado e para isso procura Deckard, que estava desaparecido há anos. 
Antes de mais, devo dizer que quando soube que iam fazer uma sequela do Blade Runner pensei: "isso é mesmo necessário?". Admito que tenho sempre medo de sequelas. Neste caso, temos um primeiro filme que é excelente e seria difícil fazerem algo tão bom - sejamos honestos, raramente as sequelas são tão boas como os filmes anteriores. No entanto, com tantos trailers incríveis a serem lançados, fiquei com as expectativas muito elevadas. Por isso, nem imaginam o quão feliz fiquei quando saí da sala e percebi que este filme está muito bom. Arrisco-me mesmo a dizer que está melhor que o de 1982 e faz com que passemos a gostar ainda mais da sua história. 
Podemos ver aqui tudo aquilo que Ridley Scott criou, mas visualmente está ainda mais bonito. Por isso, é preciso dar destaque a Roger Deakins (o diretor de fotografia) e à equipa de efeitos, que fizeram um trabalho incrível. Cada cena é brilhante! Um verdadeiro espetáculo visual. E é impossível não se ficar impressionado com os contrastes entre as cores e toda a nitidez deste filme.
Toda a ação é passada num futuro distópico e bastante negro, onde o tempo está quase sempre chuvoso. Estamos em Los Angeles, ano 2049, e a poluição é visível em contraste com os gigantes hologramas que decoram a cidade. Podemos ter uma ideia do que pode acontecer se o ser humano não perceber que realmente está a arruinar o planeta.
No primeiro filme, foi abordado o tema da evolução: quais são os limites da tecnologia? Na verdade, os replicantes são tão humanos como um ser humano e são o resultado do progresso tecnológico. Torna-se até difícil, em alguns casos, perceber se são mesmo artificiais. Blade Runner 2049 volta a apresentar-nos este dilema, em paralelo com a crise de identidade. Os replicantes podem ter memórias que lhes foram implantadas pelos seus criadores; mas e se as memórias forem realmente suas? E se toda a sua vida foi uma mentira e se não souberem quem são? É isto que nos é apresentado neste segundo filme.


No filme de Villeneuve também o som é bastante importante. Temos várias cenas em que reina o silêncio, mas temos também uma banda sonora composta por Hans Zimmer (um compositor que admiro bastante - recentemente fez a banda sonora do Dunkirk), que teve de substituir Jóhann Jóhannsson. 
Relativamente ao elenco, temos ainda presentes caras do primeiro filme: Harrison Ford e Edward James Olmos. A eles juntam-se agora Ryan Gosling, Ana de Armas, Dave Bautista, Robin Wright, Sylvia Hoeks e Jared Leto. 
Apesar de aparecerem em quase todas as publicidades deste filme, Harrison Ford e Jared Leto têm pouco tempo de antena. Ainda assim, o tempo que aparecem faz a diferença e altera o rumo da história. 
A única "falha" que tenho a apontar está precisamente relacionada com a personagem do Jared Leto. No final do filme senti que se esqueceram dele. Ficamos sem saber o que lhe acontece. Penso, no entanto, que este "esquecimento" pode levar a mais uma sequela. Na verdade, o filme tem quase três horas, mas levanta muitas questões que no final não são respondidas.
Se já viram o Blade Runner de Ridley Scott suponho que já têm o visionamento deste nos vossos planos. Se nunca ouviram falar do Blade Runner, está na altura de irem ver o primeiro filme para depois irem ver este novo. Está cheio de surpresas, razão pela qual não me alonguei muito na sinopse. Posso garantir que é uma obra-prima e um dos melhores filmes que vi nos últimos meses.
9/10 ⭐


Para terminar, não podia deixar de vos mostrar três curtas-metragens que retratam eventos que aconteceram antes do tempo de Blade Runner 2049. Recomendo que as vejam, porque explicam várias coisas que são mostradas no filme e por isso vai ajudar-vos a compreender tudo.
A primeira é um anime (Black Out 2022) criado por Shinichiro Watanabe e apresenta acontecimentos de 2022. 


A segunda curta-metragem (2036: Nexus Dawn) foi feita por Luke Scott e tem lugar em 2036. Dá-nos uma primeira imagem de Wallace, a personagem de Jared Leto, que aqui apresenta o seu novo modelo de Replicantes.



A terceira e última (2048: Nowhere to run) também foi realizada por Luke Scott e passa-se um ano antes do início do filme.

domingo, 1 de outubro de 2017

"Good Time" em análise

Good Time é um filme realizado pelos irmãos Safdie. Conta com Robert Pattinson como protagonista, num papel que certamente é um dos melhores feitos pelo actor. 


Connie e Nick Nikas são dois irmãos que fazem assaltos. Nick tem atrasos mentais e acredita que o irmão apenas quer o seu bem, ignorando tudo o que a mãe lhe diz em tentativas de o afastar dos problemas.
Certa noite, assaltam um banco. Tudo corre bem, mas rapidamente a polícia vai atrás deles e consegue capturar Nick, que é preso em Rikers Island. Então, Connie tenta de tudo para tirar o irmão da prisão, até porque Nick é uma pessoa sensível que não seria capaz de ficar muito tempo num sítio como aquele.
Em primeiro lugar, é preciso destacar a excelente performance de Robert Pattinson neste filme. O actor ficou para sempre conhecido pelo seu papel na saga Twilight e agora está a tentar distanciar-se o mais possível do vampiro. Neste filme representa uma personagem que não se assemelha a nenhuma que ele já tenha feito. Digamos que rouba todas as atenções cada vez que aparece em cena.
Connie Nikas, a personagem, é um homem determinado e bastante ambicioso, que não desiste dos seus planos, por muito arriscados que sejam. Desde cedo percebemos que está a enterrar-se cada vez mais, fazendo coisas que só podem levar a um fim que não é bom para ele. Pattinson deu-lhe imensa credibilidade, mostrando que realmente é um bom actor, contrariando as más línguas.
Para além do protagonista, também podemos falar do seu irmão, que foi interpretado por Benny Safdie, um dos realizadores. O contraste entre ambos é visível logo desde início: Nick Nikas, ao contrário de Connie, sente medo, como podemos comprovar numa parte em que este foge da polícia.
Neste filme temos imensos grandes planos e muitas cores neon. Good Time é quase todo ele passado durante a noite e mostra como é a vida dos criminosos em algumas cidades. Aqui seguimos sempre Connie que, no final, não é nada mais que um criminoso que adora o seu irmão.
A meu ver, este filme só teve um ponto negativo: não desenvolve muito. A história é, basicamente, a de um homem que tenta tirar o irmão da prisão. Seguimos o que ele faz para atingir este objectivo, mas é tudo muito linear. Por um lado isto é bom, porque o filme parece uma situação real e sem ficção, mas senti falta de algo mais. Talvez mais acontecimentos pelo meio tivessem tornado tudo ainda mais interessante. Mesmo assim, este é um daqueles filmes que surpreendem, especialmente pelas excelentes performances.
Good Time foi bastante bem recebido no Festival de Cannes, há uns meses atrás, e está agora em exibição em algumas salas de cinema portuguesas.
7/10 ⭐

sábado, 30 de setembro de 2017

"Vitória & Abdul" em análise

Vitória & Abdul é um filme de Stephen Frears que conta com a fantástica Judi Dench no papel principal.


Inspirado em factos verídicos, conta a história da amizade improvável entre a Rainha Vitória e um jovem indiano, Abdul Karim. Abdul foi escolhido para participar no Jubileu da Rainha em Inglaterra. Depois de uma longa viagem, acaba por agradar a Vitória que decide que ele deve ficar a viver em Inglaterra e torna-lo no seu munshi - o seu professor. Tornam-se bastante amigos e o rapaz ensina tudo o que sabe sobre o seu país à Rainha, que, mesmo sendo a Imperatriz da Índia, nunca lá esteve.
No entanto, o facto de Karim ser indiano e também muçulmano faz com que o resto da família real não goste dele e deseje acabar com esta amizade.
Quando fui ver este filme admito que não ia com grandes expectativas mas surpreendeu-me bastante. Como seria de esperar, a performance de Judi Dench no papel de Rainha Vitória está magnífica. É uma atriz que eu adoro e acho que ficou bastante bem a representar esta personagem.
A primeira vez que a Rainha aparece no filme está bastante ensonada e parece não ter muito interesse no que se está a passar à sua volta. Não conseguimos desenvolver logo uma opinião sobre ela, mas assim que o seu olhar se cruza com o de Abdul percebemos logo que vai surgir ali uma bela amizade. Por outro lado, a Rainha é uma pessoa com imensas responsabilidades, como percebemos em vários desabafos que ela vai fazendo ao longo do filme. É uma mulher cansada, que nunca conseguiu realmente aproveitar a sua vida. 
Abdul, interpretado por Ali Fazal, também merece um grande destaque. Felizmente este filme nunca esquece os seus protagonista. A história é sobre a amizade entre Abdul e Vitória, mas, para além disso, também conseguimos conhecê-los individualmente. O jovem indiano é um rapaz pobre, que vê o seu sonho de conhecer a Rainha de Inglaterra a tornar-se realidade. 
O contraste entre as culturas de ambos traz algumas partes cómicas ao filme. Abdul não está habituado a nada do que vê no Palácio Real e as suas reações ao que vai acontecendo são bastante engraçadas. 
Num filme como este, os cenários e o guarda-roupa merecem uma atenção especial, visto que são eles que ajudam a lembrar que o que se pretende é recriar uma determinada época. Foi tudo pensado ao pormenor. As roupas estão incríveis e somos imediatamente levados para o Séc. XIX.
No final, percebemos que o filme não é apenas sobre a amizade destes dois. Acaba por também mostrar o racismo, o preconceito e a intolerância com outras religiões que existia. Abdul nunca é aceite em Inglaterra. Apenas Vitória gosta realmente dele e aprecia toda a sua cultura: para ela não importa que ele seja indiano e muçulmano.
Apesar de não ter sido muito divulgado, Vitória & Abdul é um filme que nos agarra logo desde o primeiro minuto. A história é encantadora e as performances estão excelentes. Tenho a certeza que muitos de vocês vão gostar!
Life is like a carpet; we weave in and out to make a pattern.

7/10 ⭐ 

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

"Mãe!" em análise

Mãe! é o novo filme de Darren Aronofsky, o realizador de Cisne Negro, que conta com Jennifer Lawrence e Javier Bardem nos papéis principais. É um filme cheio de mistério e é preciso pensar bastante para realmente perceber de que se trata. Mais à frente vou mostrar o que achei das personagens principais. Peço desculpa, desde já, pela longa publicação e espero que isto não se torne muito confuso.


A personagem de Jennifer Lawrence e a de Javier Bardem formam um casal. Moram numa casa que está ser construída aos poucos pela personagem de Jennifer, enquanto a personagem de Bardem, que é um escritor, tenta escrever poemas.
Certo dia, recebem uma visita inesperada: um homem que diz ser médico, mas que mais tarde admite que é, também, um grande fã do escritor. De seguida, outra visita: a mulher do médico. A personagem de Bardem convence a sua mulher a recebê-los em casa, mas coisas estranhas começam a acontecer e mais visitas inesperadas continuam a chegar. A personagem de Lawrence começa a suspeitar de todas estas pessoas, mas o marido acha tudo normal e continua a dividir a sua casa com estes estranhos. 
Caso já se estejam a questionar, refiro-me aos protagonistas como "personagem da Jennifer" e "personagem do Javier" porque o nome das personagens nunca é mencionado. Tratam-se apenas por "querido", "querida", nunca pelo nome. Vou falar sobre isto mais à frente. 
Mãe! é considerado um filme de Terror e Mistério. Não assusta, mas é capaz de deixar uma pessoa chocada e até mesmo irritada. Enquanto estiverem a ver o filme, vão pensar: "o que se está a passar aqui?". Digamos que é muito, mas mesmo muito, estranho e parece que nada faz sentido. É preciso prestar bastante atenção a tudo e é fundamental pensar muito enquanto estamos a ver o filme, para realmente sermos capazes de o perceber. 
Toda a história é passada na casa em que o casal mora, num sítio onde não existe mais nada. Algumas partes da casa têm bastante luminosidade, especialmente no inicio. Percebemos que as zonas que a personagem da Jennifer está a reconstruir são mais claras. Depois, à medida que o filme se vai aproximando do final, a escuridão toma o lugar da luz e começamos a ter cenas cada vez mais negras. 
O suspense do filme é acentuado pelos sons, que também despertam a nossa curiosidade. Por vezes também o silêncio marca presença, deixando os espectadores ainda mais ansiosos. 
Relativamente aos atores, estamos perante muito boas representações. Admito que já não via um filme com a Jennifer Lawrence há algum tempo, porque, na minha opinião, saturaram a imagem da atriz ao ponto de eu achar que quase todos os papéis que ela fazia eram iguais. Depois de uma pequena pausa na carreira, está de volta neste papel que não se assemelha a nenhum antes feito por ela e devo dizer que está incrível, sendo que merece um grande destaque.


Agora, tal como já referi em cima, Mãe! tem muitos significados escondidos e é impossível para mim continuar esta publicação sem falar sobre eles. Por isso, caso ainda não tenham visto o filme aconselho que não continuem a ler, porque não quero estragar a vossa experiência. O que vou escrever a seguir contém spoilers
Os nomes das personagens nunca são revelados, o que deixa o espectador com dúvidas acerca do que se trata no filme. Tenho a certeza que muitas pessoas nem o vão conseguir perceber e nem eu sei se entendi. Vou mostrar-vos as conclusões que tirei depois do meu visionamento. 
Na minha opinião, a personagem de Javier Bardem é Deus. Ora, desde a chegada dos primeiros desconhecidos à casa, percebemos que este homem tem muitos fãs que seguem e repetem tudo o que ele diz e escreve; admiram-no a um ponto extremo. Há coisas que ele diz que realmente lembram coisas escritas na Bíblia como, por exemplo, que devemos partilhar com o próximo e que devemos perdoar - e estas coisas são repetidas pelos seus "fiéis". As minhas suspeitas acerca da identidade desta personagem podem ter sido confirmadas no final do filme, em que a única letra maiúscula escrita nos créditos está no nome desta personagem: "Him".
Mas se a personagem de Bardem é Deus, o que representa a personagem de Jennifer? Desde o inicio do filme percebemos que há uma pedra preciosa, digamos assim, que é muito importante e que pode simbolizar a Vida. Ainda tenho muitas incertezas, mas eu diria que a personagem é a Terra, a Mother Earth. O que me leva a pensar isto é o seguinte: de acordo com muitos pensamentos, Deus criou a Terra. Neste filme vemos aquilo que pode ser um ciclo vicioso da criação da Terra, sendo que até vemos algo que pode ser considerado um apocalipse no final - depois do fim do mundo, este poderá ser criado de novo por Deus.
Para sustentar ainda mais esta minha ideia de que a personagem da Jennifer é a Terra, posso referir que há uma parte em que chegam imensos desconhecidos à casa e começamos a ser bombardeados com situações que lembram vários acontecimentos históricos, como, por exemplo, cenas que parecem saídas da Segunda Guerra Mundial. Também num outro momento, em que a personagem está prestes a dar à luz, tudo estremece à sua volta, o que se assemelha a um terramoto. A Terra é mal tratada, o que conduz ao seu fim.
Se esta minha teoria por acaso estiver correta e se as personagens forem mesmo Deus e a Terra, então estamos perante um filme com bastantes traços religiosos, que mostra que muitas pessoas seguem as suas crenças ao extremo, por vezes nem percebendo o que realmente está certo ou errado.


Dizem que este é um daqueles filmes que se adora ou se odeia. Tenho de ser sincera e dizer que estava a detestar vê-lo e estava ansiosa pelo final. Os últimos trinta minutos do filme são uma loucura, uma enorme confusão. Ver os créditos a começar foi um alívio. Mas o objetivo de Mãe! é deixar uma pessoa a pensar e não parei de pensar neste filme durante todo o dia de hoje. Cheguei à conclusão que é impossível falar sobre o filme a quente. É preciso respirar fundo depois de o ver. Hoje percebi uma coisa: até gostei do filme. Precisamente porque me fez pensar e obrigou-me a criar teorias sobre as personagens para conseguir perceber (ou tentar perceber) tudo.
Caso estejam curiosos, recomendo que o vejam. Mas preparem-se para duas horas de plena loucura, que vos vão deixar com os nervos à flor da pele. 
Mãe! chegou esta quinta feira aos cinemas.
7/10 ⭐

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

"6 Dias" em análise

6 Dias é um filme do realizador Toa Fraser que conta com Jamie Bell e Mark Strong nos papéis principais.


Em Abril de 1980, um grupo de terroristas tomou a Embaixada Iraniana em Londres e vinte e seis pessoas ficaram reféns. O grupo, liderado por Salim, ameaça matar os reféns, caso os prisioneiros políticos da sua terra natal não sejam libertados. 
O filme apresenta três pontos de vista: o do negociador da polícia, o da brigada do SAS (Serviço Aéreo Nacional) e também o dos jornalistas, encarregues de mostrar tudo o que estava a acontecer. 
Max Vernon (interpretado por Mark Strong) tenta manter a paz, através de negociações com os terroristas. Max é capaz de se manter calmo nesta situação, revelando o seu lado humano, e esforça-se por encontrar um desfecho pacífico.
Ao mesmo tempo, a brigada do SAS treina várias opções para uma possível investida contra a embaixada. À medida que a tensão entre os negociadores e os terroristas vai aumentado, os militares vêem-se cada vez mais próximos do momento em que vão ter de agir.
No exterior da embaixada, uma grande equipa de jornalistas vai informado o publico sobre todos os acontecimentos. Kate Adie (interpretada por Abbie Cornish) é uma jornalista da BBC que se destaca porque foi uma das responsáveis pela primeira reportagem em direto na televisão.
O filme não tem ficção e apresenta tudo por ordem linear. É bastante dramático, porém gostava que tivesse mais ação e que mostrasse mais os reféns. Penso que estes são bastante importantes, para mostrar o medo que as pessoas que estavam presas dentro da Embaixada estavam a sentir. 
Posso dar destaque à banda sonora, que, tal como aconteceu no filme Dunkirk, mostra que o tempo está a passar e que existe a necessidade de agir rapidamente, mas de um modo consciente.
Jamie Bell e Mark Strong interpretam as personagens principais, que são bastante distintas. Enquanto um tenta manter a paz, o outro está treinado para agir e matar se for preciso. Deste modo, coloca-se a questão: como devemos combater o terrorismo? Através da força ou com negociações pacíficas?
Apesar de ser um filme como tantos outros baseados em histórias verídicas, 6 Dias merece destaque por relembrar um momento da História que parece ter sido esquecido. 
O filme chegou esta quinta feira às salas de Cinema.
6/10 ⭐